A FOTOGRAFIA EM PORTUGAL (II)
- Manuel Botelho da Costa
- 6 de jun. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 29 de set. de 2022
ANTÓNIO FERRO, O MODERNISMO E A FOTOGRAFIA NO
ESTADO NOVO
1- O MODERNISMO EM PORTUGAL
Introdução
Antes de ser o mestre da propaganda do Estado Novo, António Ferro deixou-se contaminar pela loucura dos anos vinte, com o jazz e o cinema à cabeça e ligou-se ao movimento modernista, produzindo textos que lhe valeram a censura da República. Proferindo conferências no Brasil ("A Idade do Jazz-Band"), e depois de ter editado dois números da revista "Orpheu", António Ferro surge como representante do Modernismo português, juntando-se a Fernando Pessoa, José de Almada Negreiros, Santa-Rita pintor e Mário de Sá Carneiro.
Os Fotógrafos
Domingos Alvão, Mário e Horácio Novaes, Ferreira da Cunha, são fotógrafos que aderem ao modernismo, até que os seus trabalhos passem a ser utilizados na propaganda do regime, na sequência da revolta militar de 28 de Maio de 1926.

2 - A EXPOSIÇÃO COLONIAL DE 1934
Na Europa, quer democracias quer ditaduras, usavam a fotografia como elemento de propaganda. Em Portugal e como já referido, após a revolta militar de 1926, a fotografia tornou-se a forma de propaganda por excelência. Na Exposição do Parque Eduardo VII, Ferro faz a experiência da propaganda do regime através da fotografia - encena a exposição, mostrando fotografias da I República (Joshua Benoliel) com greves, motins e desastres, fazendo sobressair a Revolução de 28 de maio como a salvação!
A I Exposição Colonial Portuguesa enquadra-se perfeitamente neste âmbito. A "Fotografia Alvão" solicita o exclusivo da cobertura da exposição e Domingos Alvão torna-se o fotógrafo oficial de toda a exposição.


Nota biográfica sobre Domingos Alvão: nasceu (1869) e faleceu (1946) no Porto. Iniciou-se na Casa Biel, estagiou em Madrid e passa a trabalhar no "Foto-Velo-Clube". Em 1903 funda a sua própria casa - a Fotografia Alvão, no referido Foto-Velo-Clube. Participa nas exposições de Leipzig e Turim com fotografias sobre paisagens e costumes do Minho e Douro Litoral.
Em 1934 fotografa as cheias do Douro e a Exposição Colonial.
3 - A EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS EM 1940
Embora não tenha participado na II Grande Guerra, Portugal sofria consequências do conflito, com restrições na distribuição de produtos alimentares, controlada pelo Estado. O regime autoritário, e com uma mentalidade muito fechada ao progresso, pretendia divulgar além fronteiras a visão do Estado Novo, a cultura do "orgulhosamente sós".
A nossa produção fotográfica tinha chegado aos anos 40 afastada da tendência humanista que dominava lá fora. Em Portugal dominavam os salões fotográficos ligados ao regime, meio excelente para servir a propaganda de divulgação do Estado Novo.

Esta ligação entre fotógrafos e instituições, estreita-se na preparação da exposição dos centenários da Pátria, de 1940.
A relação simbólica entre Portugal e o Rio Tejo, o local de onde, desde o séc. XIV, partiram as embarcações para mares nunca dantes navegados, é a razão pela qual se construiu a exposição junto a Belém. A exposição foi distribuída em torno da Praça do Império, sendo usado o Mosteiro dos Jerónimos como cenário e estendendo-se o espaço da exposição desde a Praça Afonso de Albuquerque até à Torre de Belém.
Os fotógrafos da exposição
Mário e Horácio Novaes, Eduardo Portugal, António Passaporte, Paulo Guedes e Ferreira da Cunha são os principais fotógrafos da "Exposição do Mundo Português".

Fotografias de Horácio Novaes

Nota biográfica sobre Horácio Novais
Horácio Novais nasceu em Lisboa em 1910 no seio de uma família de fotógrafos e morreu também em Lisboa, em 1988.
Iniciou o seu trabalho nos anos de 1925/1927 com o seu irmão Mário. Até 1931, através de Joshua Benoliel, trabalhou como repórter fotográfico no jornal O Século, onde também teve a seu cargo o trabalho de laboratório. A partir de 1931 passou a trabalhar como fotógrafo independente, abrindo um estúdio próprio em Lisboa. Participou em mostras coletivas e realizou exposições individuais, a última das quais em 1934 no SPN. Colaborou com arquitectos como Cristino da Silva, Raul Lino, Jorge Segurado, Cassiano Branco, Carlos Ramos, Pardal Monteiro ou Keil do Amaral. Até à década de 1950 destaque-se o seu trabalho de carácter oficial, nomeadamente a colaboração na Exposição Internacional de Paris (1937), nas suas congéneres de Nova Iorque e S. Francisco (1939) ou na Exposição do Mundo Português (1940).

Fotografias de Paulo Guedes

Nota biográfica sobre Paulo Guedes
Paulo Emílio Guedes, nasceu em Mondim de Basto a 23 de Março de 1886 e faleceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1947. Foi fotógrafo de imagens que posteriormente editava em postais ilustrados através da sua firma "Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva". Os agrupamentos temáticos abrangem panorâmicas de Lisboa, aspetos de rua, feiras, jardins, tipos populares, interiores e exteriores de edificios, acontecimentos sociais e festividades religiosas. A colecção de Paulo Guedes reúne cerca de 800 negativos a preto e branco, em chapa de vidro, nos formatos 9x12cm e 13x18cm. Este pequeno núcleo de imagens situa-se, cronologicamente entre final do século XIX e princípio do XX. Entrou para a Câmara Municipal de Lisboa na década de 40.

Fotografias de Mário Novaes

Nota biográfica sobre Mário Novaes
Filho do retratista Júlio Novais (1867-1925), sobrinho de António Novais (1855-1940) e irmão de Horácio Novais (1910-1988), Mário Novais nasceu no seio de uma família de fotógrafos com atividade em Lisboa desde o último quartel do século XIX. Iniciou atividade profissional no início dos anos de 1920, como retratista, na Fotografia Vasquez. Participou no I Salão dos Independentes em 1930 e na 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1946. Em 1933 montou o seu próprio estúdio (Estúdio Novaes), o qual permaneceria em actividade durante meio século.
Mário Novais ficou ligado à fotoreportagem, fotografia publicitária, comercial e industrial e, de modo particular, à fotografia de obras de arte e arquitectura. Trabalhou com diversos organismos do estado e instituições particulares, tendo sido responsável pela cobertura fotográfica de importantes manifestações culturais em Portugal e no estrangeiro, entre as quais a Exposição do Mundo Português, em 1940. Participou na Exposição Internacional de Paris (1937), na Exposição Internacional de Nova Iorque (1939) e na Exposição de Arte Portuguesa (Londres, 1955). Colaborou em periódicos como a Ilustração Portuguesa, o semanário Mundo Literário (1946-1948), a revista Panorama e ainda na Mocidade Portuguesa Feminina: boletim mensal (1939-1947).
Em 1985 o seu espólio foi adquirido pela Fundação Calouste Gulbenkian e confiado ao seu Arquivo de Arte.

Fotografia de António Passaporte
Nota biográfica sobre António Passaporte
António Pedro Passaporte nasceu em 24 de fevereiro de 1901, na cidade de Évora, de onde a sua família era oriunda. Terá sido pela mão do pai, o conceituado fotógrafo José Pedro Braga Passaporte, Photographo da Casa Real (estatuto concedido pelo rei D. Carlos em 1903), que desenvolveu o gosto e a arte da fotografia. Aos 10 anos de idade, e por decisão do pai, a família parte para Angola, tendo regressado quando António Pedro Passaporte já havia completado 16 anos. Pouco tempo depois, os estudos prosseguem em Lisboa e é nessa altura que a sua participação em peças de teatro torna manifesto o seu fascínio pelo cinema e pela fotografia. A personalidade irrequieta e o ímpeto de novas experiências levam-no a partir para Madrid em 1923 onde viria a iniciar a carreira de fotógrafo. O emprego nos Laboratórios Cinematográficos da Madrid Filmes, aproxima-o da irmã do patrão, Gregória Blanco, com quem casa em 1927. Mais tarde, viaja muito por Espanha e Argentina onde aproveita para fotografar intensivamente. Edita postais onde passa a assinar com o nome pelo qual passaria a ser conhecido: Loty. A Guerra Civil em Espanha dita o fecho da firma e aproxima-o dos ideais comunistas. É então que surge a possibilidade de ingressar nas Brigadas Internacionais como repórter fotográfico.
A edição de postais alusiva à Exposição do Mundo Português torna-se um sucesso e dita o envolvimento de toda a família. Exigente e minucioso no trabalho, António Passaporte, cuidava porém que algumas operações fossem apenas executadas por si. É também durante a década de 40 que se dedica a fazer um levantamento fotográfico do país. Para o efeito, adquire material fotográfico de vanguarda, cria um sistema de fixação do tripé ao tejadilho do automóvel, para daí poder captar os melhores ângulos, e viaja de norte a sul aos fins de semana fazendo jus à fama de “caçador de imagens”. O filho, Rodolfo Passaporte, acompanha-o em muitas dessas viagens. O conjunto de imagens da sua cidade natal, Évora, data em boa parte dessa década de trabalho frenético em que procura dividir-se entre o exigente trabalho de estúdio e as não menos exigentes e arriscadas viagens de fim de semana. Nos últimos anos de vida dedica-se a escrever as suas memórias da Guerra Civil de Espanha e à investigação das origens da sua família. Vem a falecer em Lisboa, em 1983, aos 82 anos de idade, atingido por uma doença que afectava a memória.

Fotografias de Eduardo Portugal

Nota biográfica sobre Eduardo Portugal
Eduardo Macedo d' Elvas Portugal nasceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1900, na freguesia do Coração de Jesus (atual freguesia de Santo António) e faleceu em 1958.
A sua vida profissional começou como arquivista no Banco Portuguez e Brasileiro, em Lisboa, na rua Augusta n.º 34, tendo terminado em 1932, quando o banco encerrou.
A sua actividade fotográfica surgiu por volta de 1919, sendo referenciado num caderno de registo a aquisição de equipamento fotográfico entre fevereiro de 1919 e abril de 1922: uma máquina Vest Pocket, lentes para fotografias, tripé adaptador, disparador de cabo e automático, lanterna e guilhotina com os respetivos valores de compra. Em 1925 foi premiado com o 5º lugar na "Exposição Nacional de Fotografia", nos Armazéns Grandela. Participou noutras exposições, de entre as quais se destacam: a "Exposição de Fotografias", no escritório da firma Turismo de Portugal Lda.; a "Exposição Júlio Castilho", a 30 de Abril de 1940, onde obteve uma menção honrosa pelo 6º lugar; a "1ª Exposição de Arte Fotográfica de Tomar", em 30 de Abril de 1940, onde obteve uma menção honrosa pelo 6º lugar; o "1º Salão Fotográfico Amigos de Lisboa" e a "Exposição Comemorativa do Centenário de Almeida Garrett (1854 - 1954)".
Entre 1936 e 1958, Eduardo Portugal foi fotógrafo, editor e colecionador. Colaborou intensamente com a Câmara Municipal de Lisboa, em muitas das fotografias para edições municipais sobre vistas e aspetos urbanísticos da cidade, monumentos, reproduções de gravuras, paisagens, entre outras. Como editor, publicou várias coleções de postais quase sempre impressas no estrangeiro. Revelou-se ainda um exímio colecionador, reunindo imagens de fotógrafos que fotografaram no século XIX, entre os quais Francesco Rocchini, José Artur Leitão Bárcia e António Novais.
Eduardo Portugal reuniu todo o seu espólio iconográfico e documental de carácter pessoal e profissional na sua residência em Lisboa. Após a sua morte, a coleção permaneceu intacta e, em 1991, os familiares doaram o seu espólio (arquivo fotográfico, biblioteca, documentação pessoal e profissional) ao Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico.














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